Autores:
Rogério Ribeiro Parreira
Sabrina Ávila
Stela Paiva Guimarães
Priscila Marques
Letícia de Almeida Maestri
Esse artigo é fruto de nossa curiosidade, de nosso pouco conhecimento acerca do nome do autor e de nossa vontade de nos aprofundar num tema tão polêmico que abrange sim a filosofia, mas, sobretudo, traz à Ágora a discussão desse autor tão controverso.
NIETZSCHE
De nacionalidade alemã, Nietzsche nasceu a 15 de Outubro de 1844 na aldeia Roecken. Seu nome foi escolhido ( por seu pai ) em homenagem ao rei da Prússia Frederico Guilherme, o qual se tornou protetor da família Nietzsche por ter em grande estima Karl-Ludwig Nietzsche, pai de Frederico. A mãe vinha de uma família de pastores luteranos; o pai e o avô também o eram e ensinaram teologia ao menino.
Frederico era uma criança silenciosa e absorta que herdou do pai o dom para a música e enfermidades tais como sofrimentos cerebrais e perturbação mental, as quais se manifestariam mais tarde em sua vida e em suas últimas obras. A morte do pai tornou-se um trauma que o acompanhará por toda a vida fazendo-o sentir-se inseguro e solitário.. E, como conseqüência de tal transtorno acometeu-lhe pressentimentos, visões,sonhos premonitórios. No auge de sua revolta, aos 35 anos grita: “DEUS ESTÁ MORTO”. Por volta dos quatro anos de idade Frederico perde o pai e muda-se com a mãe e os irmãos para a cidade de Naumburg-sur-Saale. O lugar lhe era estranho e a seus olhos não parecia acolhedor, ao contrário, por ser tão diferente do lugar de onde viera sentiu-se extremamente deslocado e desprotegido. Com o tempo acostuma-se a Naumburg e vive bem.
Desde criança acreditava vir a ser, como os seus, pastor. Era quase obstinado por essa idéia que para ele tomara a forma de uma firme, porém não inabalável convicção. Sua vida é, desde cedo, marcada por impressões religiosas.
Ao completar dez anos de idade entra para o colégio de Naumburg, mas logo é recomendado a sua mãe que o transfira para instituição mais qualificada, no caso, o colégio de Pforta devido a superioridade de intelecto do menino. A mãe seguiu tal orientação pedindo uma bolsa para o filho no colégio indicado.
Aos doze anos de idade diz ter visto Deus, com estas palavras: “Vi Deus na sua potência e majestade”. Frederico tem uma idéia concreta, sólida, do que é Deus e do que ele representa, o bem supremo. Idéia esta que desfaz-se ao longo dos anos pela lembrança terrível do que significara a morte do pai em sua vida.
Aos treze anos de idade, em profunda reflexão, tenta conciliar a existência de Deus e do Diabo num mesmo universo. Pois, ao mesmo tempo que conhece a existência de Deus e sua magnitude, principalmente através dos ensinamentos de teologia que o pai ( a presença do pai era para ele como o próprio paraíso na terra )e o avô ministravam a ele, vive uma espécie de inferno com a partida eterna do pai. Para tanto, o menino cria uma teoria em que a santíssima trindade se transfigura em uma trindade não mais imaculada, composta agora do Pai, do Filho e do Diabo que, para ele, antes estava disfarçado sob o nome de Espírito Santo. E, segundo essa mesma teoria, o Diabo está tanto em Deus quanto em nós e, a missão de Deus e a nossa seria então converter esse demônio para alcançarmos o que Nietzsche chamaria de o Absoluto. Esse Absoluto seria talvez, o que ele, no início de seus anos, acreditava ser Deus, aquele ser do qual teve uma visão aos 12 anos de idade. Esta teoria pode ter alguma ligação com a obra “O Anticristo”, talvez seja ela um rascunho, um esboço ou idéia primitiva que daria origem a uma série de críticas ao Cristianismo tal como lhe foi apresentado.
Escreveu, aos 12 anos, Péguy, uma obra em que ele versa sobre a própria vida. Em seu primeiro caderno contou a história de sua infância finalizando-a com as seguintes palavras: “Agora, levei a bom fim o meu primeiro caderno, e estou contente com o que fiz. Escrevi com o maior prazer e sem um momento de fadiga. É tão belo fazer repassar diante da nossa vista o curso dos primeiros anos e seguir aí o desenvolvimento da alma. Contei sinceramente toda a verdade, sem poesia, sem ornamento literário… Possa eu escrever ainda muitos outros cadernos iguais a este!”. E conclui esse caderno com a esquadra:
“A vida é um espelho.
Nele se reconhece,
É a primeira finalidade, digo,
Onde cada um de nós se esforça.”
Já em Pforta, Frederico prepara-se para o sacerdócio, quase que exigido pela mãe. E assim, ao voltar de férias passadas perto da família, se põe a refletir sobre os versos do poeta Manfredo, que dizem:
“O saber é amargo: os que mais sabem
Mais profundamente choram a verdade fatal,
A árvore do conhecimento não é a árvore da vida.”
E sentindo-se insatisfeito com o enorme volume de conhecimento que acumulara, sente também que a alma pede mais. O desconhecido o atrai e ele fica indeciso entre o saber e a crença, entre a vida e o conhecimento. É aí que se vê diante da dúvida cruel: Ainda possui crença? Ele não tem mais aquela clara idéia sobre Deus. E refugia-se, do dilema que vive,no mundo da arte, mais especificamente no mundo da música, tem em mente a vontade de ser músico e preocupa-se em dar a notícia à mãe.
A morte de um professor pelo qual ele cultivara grande admiração e apreço o leva ao início de sua crise religiosa, que o acompanhará pelo resto da vida. Sua fé se desfaz. Ele então passa a refletir:
“Semelhante tentativa não é o trabalho de algumas semanas, mas de uma vida. Armado apenas com os resultados de uma reflexão pueril, pode-se pretender aniquilar a autoridade de dois mil anos, garantida pelos mais profundos pensadores de todos os tempos? Com fantasias e rudimentos de idéias pode-se pretender pôr de ladoas angústias e as bênçãos religiosas de que a história está toda penetrada?
Resolver problemas filosóficos com os quais o pensamento humano trava luta desde há vários milhares de anos; revolucionar crenças que, recebidas pelos homens mais autorizados, têm, em primeiro lugar, elevado os homens à verdadeira humanidade; ligar a filosofia às ciências naturais sem sequer conhecer os resultados gerais de uma ou de outras e, finalmente, tirar das ciências naturais um sistema do real, quando o espírito não apercebeu ainda, quer a unidade da história universal, quer os princípios mais essenciais__ é uma perfeita temeridade.
…O que é portanto a humanidade? Mal o sabemos: uma etapa num conjunto, um período numa transformação, uma produção arbitrária de Deus? É o homem algo mais do que uma pedra evoluída através dos modos intermediários das floras e das faunas? É já um produto acabado! Que lhe reserva a história? Essa eterna evolução não terá fim? Quais são as engrenagens deste enorme relógio? Estão escondidas mas, enquanto dura a grande hora que chamamos história, são as mesmas em cada instante. As peripécias estão inscritas no mostrador onde o ponteiro progride, e, quando passou a décima-segunda hora, recomeçam uma série. Abre-se então um período na história da Humanidade.
Arriscar-se, sem guia nem compasso, no oceano da dúvida, é perda e loucura para um cérebro jovem. A maior parte é quebrada pela tempestade, o número dos que descobrem regiões novas é pequeno. Toda a nossa filosofia pareceu-me frequentemente uma Torre de Babel. O resultado, desolador, é uma perturbação infinita dos pensamentos populares; devemos contar com grandes perturbações__ no dia em que a multidão compreenda que todo o Cristianismo é fundado sobre afirmações gratuitas. A existência de Deus, a imortalidade da alma, a autoridade da Bíblia, a revelação, serão sempre problemas. Tentei negar; ah!, destruir é fácil, mas construir?”
Ambiciona assim, criar uma nova moral. Irá, por isso, sempre destruir e sempre tentar construir.
É muito importante também, lembrar a história de amizade entre Nietzsche e Wagner, pois, para fugir de seu dilema já exposto anteriormente, dedicou-se à música.
Nietzsche, interessado pela arte, ao conhecer Wagner encanta-se com sua música e nasce ali uma terna e longa amizade. Foram três anos de conversas agradabilíssimas que envolviam filosofia, música e poesia. Nessa época, Nietzsche era professor na Universidade da Basiléia e admirava a música, o estilo de Wagner. Para ele, a obra de Wagner é como um verdadeiro renascimento da tragédia e como uma ação transformadora da vida do homem moderno.
Os amigos se separam quando Wagner muda-se para Wahnfried, perto de Bayreuth para montar seu próprio teatro com a proposta de um teatro para artistas, para “a luta contra o poder, a lei, a tradição, o pacto e toda a espécie de ordem estabelecida”, não para mero entretenimento como eram os teatros daquela época. Nietzsche vai até Bayreuth prestigiar a inauguração do teatro de Wagner mas se decepciona com o que vê, primeiro o público, composto de burgueses e não de artistas, depois o espetáculo.
Por isso, Nietzsche afasta-se de Wagner e escreve a obra intitulada “O Caso Wagner”, tecendo sérias críticas à produção do amigo, chega a chamá-lo de simples comediante.
O ANTICRISTO
Primeiramente, vale ressaltar que a tradução do título “O Anticristo”, do original alemão, também poderia ser feita como o “Anti-cristão”. Portanto, a obra não se foca necessariamente na crítica a Jesus, mas ao cristianismo. Foi escrita em 1888 e publicada em 1895.
Nietzsche inicia o livro afirmando que somente a posteridade irá valorizá-lo. “Alguns homens nascem póstumos”, diz. Consciente da polêmica de sua obra, ele ressalta que para ser seu leitor o homem deve ter adquirido um gosto pela ousadia e ser indiferente à verdade. Ou seja, o leitor de Nietzsche deve investigar a verdade sem se preocupar se ela será benéfica ou prejudicial. Encerra o prefácio sem dar importância ao resto dos homens que não sejam seus leitores: “Que importância tem o resto? O resto é somente a humanidade. É preciso tornar-se superior à humanidade (…)”.
No início de “O Anticristo”, Nietzsche conceitua bom, mau e felicidade. Para ele, bom é tudo o que aumenta o poder do homem ou a sensação deste; mau é tudo aquilo proveniente da fraqueza; e felicidade consiste em ter a sensação de que o poder aumenta. Ainda afirma que os fracos devem perecer, ao contrário do que prega a caridade cristã.
Baseia-se aí também seu conceito de super-homem, que para ele é um tipo de homem superior aos outros, uma exceção isolada que consiste em um tipo mais temido e, por isso, indesejado pelos outros. Por isso diz que o cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, opondo-se aos instintos naturais do homem. Fala aí de uma corrupção do homem (palavra tomada no sentido de decadência, termo este muitas vezes utilizado). Em suma, Nietzsche afirma que todos os valores cristãos (aos quais chama algumas vezes niilistas) são valores de decadência.
Para Nietzsche, o cristianismo é depressor, já que faz o homem perder poder por meio da compaixão. Esta, diz, contraria a lei da evolução, que se apóia na seleção natural. Cita aí Schopenhauer, concordando com ele quando afirma que a compaixão é uma negação da vida. Porém, critica o mesmo autor ao dizer que este só considerava a compaixão uma virtude por ser hostil à vida. Lembra ainda que Aristóteles via na compaixão “um estado mental mórbido e perigoso”.
Concentra sua crítica, em seguida, à figura do padre, a quem chama “negador (…) da vida por profissão”. Endurece mais ainda afirmando que o padre vive do pecado, ou seja, tem necessidade de que existam pecadores para que eles mesmos possuam razão para continuar a existir. Assume também que tudo o que um teólogo considera verdadeiro é necessariamente falso.
Foca sua fala, em seguida, nos filósofos. Para ele, estes nada mais são do que o desenvolvimento dos sacerdotes. Por isso diz que os filósofos apóiam a Igreja, porque ambos concordam no que considera uma mentira sobre a ordem moral do mundo. É irredutível ao afirmar que as escrituras sagradas foram forjadas pelos padres de acordo com suas conveniências, e a elas chamaram “a vontade de Deus”.
Nietzsche não ataca apenas os padres, mas também o protestantismo, ao qual se refere como uma “paralisia hemiplégica do cristianismo e da razão”. Desvaloriza os alemães, entre eles Lutero, Leibniz e principalmente Kant, que para ele é a “decadência alemã em forma de filosofia”.
Direciona-se, então, ao homem em geral. Para Nietzsche, o homem está no mesmo nível dos outros animais, sendo até mesmo o mais corrompido deles, o que não o impede de ser o mais interessante.
Voltando ao cristianismo, afirma que nele falta realidade, já que criou um mundo fictício. E a causa da fuga da realidade seria o sofrimento. “Quem tem motivos para fugir da realidade? Quem sofre com ela.”. Daí a adesão dos “fracos” ao cristianismo.
Nietzsche explica sua teoria da seguinte forma: uma nação forte, rica, precisa de um Deus bom e ruim, sendo admirado exatamente por ser capaz de fazer o bem e o mal. Quando há prosperidade, o povo agradece a Ele por isso. Já uma nação em declínio precisa de um Deus bom para dar esperança ao povo fraco. O Diabo é a explicação encontrada para o motivo de seu sofrimento, já que tendem a negar tal sofrimento.
Faz, então, um breve histórico, sob o seu ponto de vista, do cristianismo. Os judeus, devido a todo seu sofrimento, supostamente falsificaram a natureza, aderindo à decadência como um meio de ser mais forte do que a afirmação à vida. Entende, portanto, o cristão como a última conseqüência do judaísmo.
Resume, ainda, a moral cristã à “sorte despida de sua inocência”; ou seja, os cristãos, inconformados com o sofrimento causado pela fraqueza, ou satisfeitos com a prosperidade alcançada, têm a necessidade de encontrar uma justificativa para todos os acontecimentos comuns da vida (a sorte acima citada), ao invés de apenas aceitá-los.
Sua frase “o cristianismo de fato nega a igreja” pode ser corretamente relacionada à outra de que “o evangelho morreu na cruz”. Em outras palavras, para ele o que foi proposto por Jesus nada tem a ver com o que é pregado pelas igrejas.
Vale ressaltar, por fim, que em meio a tantas críticas, encontra-se um elogio a apenas uma religião: o budismo. Considera esta uma religião para pessoas em um estágio mais avançado de desenvolvimento. A causa de sua admiração pelo budismo é que, enquanto no cristianismo a perfeição é algo inatingível, apenas objeto de aspiração, no budismo ela é algo normal. Além disso, na concepção de Nietzsche, Buda ensinou o egoísmo como um dever, já que cada um deve pensar em como libertar-se de seu sofrimento.
A “boa nova” anunciada pelo Salvador versa que não existem mais contradições. A fé pregada por Jesus não se manifesta através de milagres, recompensas, promessas ou “escritura” pois é, do princípio ao fim, seu próprio milagre, sua própria recompensa, sua própria promessa, seu próprio “Reino de Deus”. O Salvador, ao longo de sua vida, semeou sentimentos bons, um modo de viver capaz de santificar homens. Para Nietzsche,Cristo não é o filho de Deus, mas o grande bonacheirão que traz em seu coração o “Reino dos Céus”, dono de um coração doce e demasiado fraco para a vida.
Nietzsche afirma que a concepção cristã de Deus é uma das concepções mais corruptas existentes.
“Encontra-se talvez ao mais baixo nível da evolução descendente do tipo divino: Deus degenerado e a ponto de estar em contradição com a vida, em vez de ser a glorificação e a eterna afirmação! Declarar a guerra, em nome de Deus, à vida, à natureza, à vontade de viver! Deus, a fórmula para todas as calúnias do “aquém”, para todas as mentiras do “além”! O nada divinizado em Deus, a vontade do nada santificada!”
Segundo Nietzsche, o cristianismo é mais obra de São Paulo do que do Nazareno. Na verdade, São Paulo transforma a prática da vida do coração puro numa igreja com milagres, sacerdotes, com um sistema de recompensas e de castigos, e faz de Jesus o filho de Deus que se sacrifica pelo perdão dos pecados do mundo.
Nietzsche afirma ser uma indecência ser cristão, reiterando seu desprezo pela humanidade, por deixar-se manipular por uma religião diametralmente oposta aos princípios da vida e da felicidade. O cristianismo representa ”a guerra de morte contra o tipo superior de homem”, a corrupção, a perversão dos instintos humanos, a religião contrária à natureza, sendo apenas o fenômeno mais poderoso de uma aberração dos instintos do homem na história do espírito, aberração que se apresenta como invenção de um outro mundo ideal e, por conseguinte, como depreciação do mundo terreno real.
Os discípulos, ao construírem o Evangelho, foram movidos pelo mais mesquinho dos sentimentos: a vingança. Desse modo, esqueceram o exemplo oferecido pela morte de Jesus, a liberdade, a superioridade sobre todo o ressentimento, uma plena indicação de quão pouco foi compreendido. Este desejo de vingança culminou por elevar Jesus de modo extravagante, transformando a crença no Deus único e no filho único de Deus em produtos do ressentimento.
“Desde então o tipo do Salvador foi sendo corrompido, pouco a pouco, pela doutrina do Julgamento e da segunda vida, a doutrina da morte como sacrifício, a doutrina da ressurreição, através da qual toda a noção de “bem-aventurança”, a inteira e única realidade dos Evangelhos é escamoteada – em favor de um estado existencial pós-morte!… Paulo,com aquela insolência rabínica que permeia todos os seus atos, deu um caráter lógico à essa concepção indecente, deste modo: “Se Cristo não ressuscitou de entre os mortos, então é vã toda a nossa fé” – E de súbito,converteu-se o Evangelho na mais desprezível e irrealizável das promessas, a petulante doutrina da imortalidade do indivíduo… E Paulo a pregava como uma recompensa!…”
Nietzsche resuma aquilo que já dissera sobre a moral da piedade e da psicologia do sacerdote, mas dá, ao mesmo tempo, aos seus pensamentos, uma mordacidade inaudita, revela-se de uma perspicácia agressiva; o seu fito é ofender, insultar a tradição, “transvaliar”, criando valores anticristãos. Ele afirma que o único e verdadeiro cristão morreu na cruz, e a partir daí inicia-se o processo de degenerescência do cristianismo. São Paulo significaria o primado de todos os valores de degeneração em nome de Deus.
Os princípios do cristianismo são vertente propagandística. A “alegre nova” foi seguida de perto pela pior de todas: a de São Paulo. Neste encarna-se o tipo oposto do ‘alegre mensageiro’, quer dizer o “gênio no ódio”, na visão do ódio na implacável “lógica do ódio”. São Paulo seria o inventor da doutrina do juízo final e esta seria o meio do qual teria se servido para fundar de novo, e mais radicalmente que nunca, uma tirania sacerdotal e para formar um rebanho.
A idéia cristã de pecado seria a forma gigantesca de degradação e aviltamento;seria um atentado perpretado contra a vida pelos padres parasitas.
“Que não nos deixemos induzir pelo erro: eles dizem “não julgueis”, mas condenam ao inferno tudo que fica em seu caminho. Ao deixarem Deus julgar,são eles próprios que julgam; ao glorificarem Deus, glorificam a si mesmos; ao exigirem que todos manifestem as virtudes para as quais são aptos – mais ainda das quais precisam para se manterem no topo”.
Nietzsche afirma que Deus, tal como Paulo o criou, é a negação de Deus. São Paulo é a dupla sublevação do sacerdote e dos valores de degenerescência. Os sacerdotes tomam o poder à medida que a vida degenera. O cristão e o niilista na apenas se harmonizam, como ainda têm entre si uma relação necessária. O cristianismo não significa apenas, no tempo, o fim do mundo antigo, mas representa igualmente o aniquilamento do modo e da valorização nobres da vida. De acordo com ele,o cristianismo nada mais é que uma fatalidade.
Ao afirmar que a força e a liberdade surgem do vigor e da plenitude intelectual que se manifestam através do ceticismo, ele demonstra quão fraco e dependente é o homem que possui fé.
No entanto, não se trata de religião no sentido próprio do termo. O que Nietzsche combate com tanta convicção é, antes de mais nada, uma metafísica, uma avaliação ataca a forma história e factual de tal avaliação feita pelo cristianismo.
Nietzsche diz: “Eu quero inscrever esta acusação contra o cristianismo em todas as paredes, onde houver paredes – eu tenho letras que os próprios cegos vejam… Considero o cristianismo a única grande calamidade, a única grande perversão interior, o único grande instinto de ódio para o qual meio suficientemente peçonhento, oculto, tenebroso e pequeno; eu o considero a única e imortal ignomínia da humanidade”, destante repudia toda forma de manifestação da Igreja Cristã.O cristianismo não é uma tendência vital humana, demasiadamente humana, é uma fraude que proclama a ilusão da “igualdade das almas perante Deus” e transforma todo valor em indignidade, toda verdade em mentira e toda integridade em baixeza da alma.
Cristo, os santos e mesmo as pessoas iluminadas de outras religiões vieram e ensinaram para que todos fossem felizes, para que todos alcançassem a sabedoria divina. Mas a Igreja se fecha em dogmas inexpugnáveis, nas missas na há quase nenhum exercício racional, existindo, na verdade, meras repetições.
O princípio fundamental da crítica de Nietzsche é a convicção da morte de Deus e o ateísmo dogmático.O exagero faz com que se perca em grande parte o efeito desejado.
CRÍTICA
Mesmo tendo vivido no século XIX,Nietzsche com “o anticristo” pode estar mais atual do que nunca quando traçados paralelos entre sua obra com o os momentos vivenciados no século XXI.
Analisando-o pela perspectiva do seu contexto histórico ,sua formação intelectual,familiar e levando em conta todos os fatores que possivelmente o levaram a uma falta de esperança,vê-se que “o anticristo” expressa a desesperança,o que alguns chamariam de niilismo da esperança e que ao realizar uma leitura cuidadosa da obra deve-se,muitas vezes,ponderar os inúmeros exageros e se deter mais nas essências de suas críticas,na sua postura,que pode ser considerada mais um ataque contra o que Nietzsche pensava enfraquecer e deformar a sociedade,do que diretamente contra o Cristo.
Alexandre P.Vieira,quando tece seu comentário a respeito da obra,desloca a figura do famoso filósofo para a atualidade e o coloca frente a frente com os “vilões” do nosso tempo, “vilões” sofisticados,difíceis de se identificar e pertinentemente tenta prever como ele reagiria a mídia mundial,especialmente a brasileira.
Nietzsche seria extremante crítico a grande imprensa,escreveria contra a tirania da “liberdade de imprensa”,o que Alexandre conceitua como “a tirania que te impõe um:você vai saber disso mesmo que não queira”.A guerra não seria mais contra a Igreja,que antes tinha um posicionamento rígido,dogmático,até mesmo mais preconceituoso,a guerra seria contra essa mesma alienação manifestada em hipocrisias,idolatrismos ,só que agora entranhada livremente em jornais,revistas,em todo o cotidiano,disfarçada de opinião popular,de verdade,de liberdade.Veria a Igreja,o Cristo como “peças no tabuleiro do jogo pesado da grande imprensa”.
É delicado definir vilões,inimigos como Nietzsche fez.Não se pode atribuir a uma única instituição ou grupo todos os males sociais,mesmo porque é extremamente complicado definir o que seriam esses fatores que “enfraquecem” a sociedade,visto que mudam de conceito em cada cultura.Porém,ao menos na cultura ocidental,arriscamos considerar a alienação como um dos males sociais.
Provavelmente um dos vilões seja a manipulação de massas,a cultura de ser “rebanho”,já criticada e denunciada no “anticristo”,e ainda mais o estado em que as pessoas sabem que são “rebanho” mas nada fazem para mudar essa situação,pois é esse “vilão” que mascara as injustiças sociais,justifica violências preconceitos e mantêm os privilégios dos que coordenam o “rebanho”.
Mas de nada vale se esvaziar de esperanças,seria sucumbir como que por determinismo a realidade não admitida,mais vale,além de argumentar,procurar soluções.Já não basta traçar leis aos “vilões” como nas leis contra o cristianismo,bastaria mais fazer nem nossa parte para a mudança,dar o exemplo.
Nietzsche é polêmico porque ataca a religião, a moralidade e a filosofia misturando uma análise crua, inspirada no Iluminismo para atacar os aspectos da vida moderna que contrariam a vida. Nietzsche também critica muitas das instituições e valores das sociedades modernas como sendo opressoras reais do corpo e de sua criatividade, uma vez que inibem o surgimento de indivíduos mais fortes e uma organização sociocultural mais vigorosa.
Nietzsche atava a noção de livre-arbítrio e pecado original, atacando a estrutura da noção de revelação. É como Descartes questiona inspirado no Iluminismo: “Ó Adão, não te demos um lugar determinado, nem uma forma própria, dons determinados…, de modo que podes obtê-los de acordo com tua própria decisão, tua própria vontade. Tu determinarás tua natureza segundo a tua vontade: Tu és o único ser não restrito por nenhum limite a não ser o da tua vontade, que te dei.”. Como se pode perceber, um dos pontos mais dogmáticos começa a ser questionado aqui, com a análise da noção de livre-arbítrio, fervorosamente defendida por Agostinho e que se remete ao chamado pecado original.
Segue-se a análise feita pelos também iluministas Voltaire e Diderot, famosos por suas enciclopédia, de que a Revolução Francesa é o prenúncio de um golpe mais forte na religião: “Nenhum homem será livre enquanto o imperador não for degolado com as tripas do último padre.”. Diante disso tudo e do anti-clericalismo Iluminista, que por força histórica associava o podre sistema absolutista apoiado pela Igreja, que lhe dava fundamento, têm-se que o próprio lema da Revolução é puramente cristão: Liberdade, Igualdade e Fraternidade, é dizer, como Nietzsche faz, como se não atacasse os valores cristãos e seus princípios, mas sim a instituição criada que se apropria e abusa deles. Nietzsche principalmente, senão exclusivamente, recusa uma religião moralizante e culpabilizante – religião que não seria tanto o pensamento de Jesus, mas sua deformação, desenvolvida pelos evangelistas e principalmente por São Paulo.
Outro ponto bastante polêmico desse autor é a afirmação de que Deus está morto. Vejamos seus argumentos: ele diz que o homem livre da instituição religiosa terá o livre-arbítrio para desenvolver suas inclinações, que são puramente humanas. É como se ele afirmasse que a humanidade só será composta por pessoas que agem como seres humanos se elas estiverem livres das doutrinas e dogmas religiosos que coordenam e limam suas ações numa tentativa de chegar à “perfeição”; o importante é que sejamos livres para fazer história; já que pensava Nietzsche, do início ao fim de sua carreira, que os ídolos espirituais perenes e contemporâneos, eram obstáculos para o livre pensar e viver. Mas, pergunta-se: do que seria a humanidade sem a religião? Para isso, ele nos traz esse pensamento: que o homem aspira superar suas limitações, “criando um Ser que seria o projeto de tudo que gostaria de ser. Assim, quanto menos o domínio que o mesmo tem com relação à natureza, mais ele se apega a um Ser transcendente, criando Deus à sua “imagem e semelhança”, ademais, quando não precisa mais de Deus, o mata.”. Somando-se a isso, a que os humanos só recorrem a Deus quando se buscam em necessidade (ao menos aqueles que não seguem a religião de forma fervorosa), Nietzsche é seguro ao afirmar que o mundo não tem um alvo final a ser alcançado como é a maneira religiosa de pensar, exemplificando-se com os alvos da perfeição, do absoluto, do bem supremo, da felicidade. Dessa forma, Nietzsche nos coloca num mundo que não conhece a saciedade, não conhece o cansaço, e por isso, alterna num padrão cíclico de criar-a-si-próprio e destruir-a-si-próprio.
Quanto ao valor da perfeição e ao dever da adoração estabelecidos pela Igreja, que gera sim um submissão, pois se teme ao perfeito e se declina a isso diante de uma suposta incapacidade prévia de fazer algo semelhante ou melhor, Nietzsche nos apresenta uma ironia aos hegelianos, dizendo que tais “homens” colocam a finalidade da vida na morte (e veremos mais adiante qual é o erro que se desdobra), em prol do grandioso vir-a-ser.
Diz-se que eles tentam legitimar a vida, propondo a eles mesmos um fim, um alvo a posteriori, sacrificando suas próprias vidas em prol deste. O erro a que eu tinha me referido, é uma análise que Nietzsche faz sobre os “homens hegelianos”, pois ele os denomina de “homens históricos” e o erro desses homens está em viverem pensando no futuro, a partir do passado, e, de certa forma, concorrem com a vida do presente.
Fazendo-se um reforço teórico ao parágrafo anterior no que concerne à submissão das pessoas ante algo que se afirma ser perfeito e exemplar, é que não se preza a seguir verdadeiramente, e não apenas no discurso, os valores e ensinamentos dessas vidas “exemplares” e questiono-me sobre isso também ao invés de me conter a pensar a partir disso: a história procura no passado modelos e mestres através da imitação e adoração destes.
São esquecidas milhares de vidas comparáveis às mais inteligentes ou às mais admiráveis; dessa forma, o que chama-se cultura é apenas um saber entorno da cultura (fala-se de Rafael, Goethe, Bethoven, Renoir, Michelangelo, Van Gogh) e não a cultura efetiva. Encontrei um questionamento de Nietzsche bastante pertinente sobre os valores atuais comparados aos valores da Grécia Antiga: indaga-se, na verdade, supõe-se afirmativamente, que se um grego antigo com um homem erudito moderno tivessem um diálogo analisando-se mutuamente, o grego poderia dizer que o erudito moderno tem mais sabedoria que eles, mas em contrapartida, eles têm mais vida. Isso me fez pensar sobre a vida: sobre qual pilastra se teria uma vida mais confortável e, portanto, melhor: uma vida em que se sente culpa por um pecado inerente e inato e se posterga a felicidade para o além-morte, ou se se vive a felicidade no presente.
Da Igreja propagadora de idéias que manipulam a sociedade, vamos à mais uma crítica de Nietzsche, nos atendo a comentar somente para incitar à uma reflexão já proposta anteriormente: a imprensa, como a Igreja, constitui um desperdício de tempo, no qual os leitores gastam os dias e as vidas sem fazer previsões para o futuro, sem criar nada. Nietzsche criticou os formais pelos quais o entretenimento moderno e a imprensa promoviam a passividade e o conformismo, anotando num pequeno verso “Como a imprensa é impulsiva ao encher os leitores de informações, e relapsa no que tange à idéias discordantes”. Porém, Marx discorda dizendo que a imprensa promovia a democracia e as liberdades civis. Cria-se dois pensamentos, o de que a imprensa, a propaganda intensa de informações, de certa forma, é um instrumento de progresso e esclarecimento enquanto que outros a vêem como um veículo para a distração e a banalidade.
Todo esse recorrido à crítica de Nietzsche, à cultura de massa e aparente fuga ao tema “O AntiCristo” foi feito para que fosse clara a comparação entre a Igreja e a imprensa de massa que parecem ter unido forças numa conspiração trágica e apocalíptica.
Abrindo-se tal visão superficial com Nietzsche que “atacou o racionalismo excessivo, o individualismo egoísta, o otimismo raso, a homogeneização e a fragmentação que alivia como sendo características da cultura moderna”. Nietzsche diz que “ com a proliferação dos estudos históricos, o homem moderno estava sendo paralisado e esmagado pelo conhecimento histórico”; defendendo que “nós, modernos, não possuímos nada de próprio, assimilando uma esmagadora quantidade de conhecimento, que não desencadeia efetivamente um papel transformador na vida social e que os indivíduos modernos sofrem de personalidades fracas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A religião, para ele, era uma forma de cultura de massa. Embora Nietzsche algumas vezes seja acusado de ser irracionalista, “seu ataque ao cristianismo se deve exatamente ao irracionalismo deste último, que vitima o corpo e o mundo. Jesus Cristo, ele clamou, promoveu a estupidez do homem, colocou-se ao lado dos pobres de espírito e atrasou a produção do supremo intelecto.” “Nietzsche também dissecou a transvaloração de valores do cristianismo, que tornou maus o poder e sabedoria, enquanto afirmava que a inferioridade, a humilhação e a submissão eram algo bom. Ele acreditava que a promoção dessa moral de escravos valorizava excessivamente o espírito em relação ao corpo, promovendo uma repressão generalizada da sociedade.”
“Nietzsche era “antipolítico” pois acreditava que a política de massa contemporânea levava ao conformismo do rebanho, à perda da individualidade e à manipulação e homogeneização das massas.”
“Ele argumenta que os movimentos democrático, liberal, feminista, anarquista e socialista são expressões do declínio da vida, da doença e do ressentimento. Todos eles são manifestações da cultura socrática, que privilegia a razão em detrimento da paixão, as idéias sobre a vida; todos são também manifestações das modernas tendências à homogeneização e, portanto, contra a vida, ajudando a produzir indivíduos e culturas enfraquecidos.” Observa-se “a dualidade de Nietzsche para com a democracia de modo bastante claro: por um lado ela é útil como contraforça à tirania, mas em compensação é aborrecedora e promove a mediocridade.”


















Parabéns pelo artigo. Ficou muito completo e inteligente.
Sucesso, T+
Parabéns aos autores do artigo! Ficou realmente um trabalho de excelência. É sabido que falar de Nietzsche é um tanto quanto complexo pela dimensão do seu conteúdo, entretanto, os autores souberam conduzir de uma forma muito dinâmica, clara e objetiva.
Parabéns a todos, sucesso sempre!
poderiam ter falado sobre o Amor fati em Nietzsche.pois todas as religioes sao decades por negarem o sofrimento….
Descobri Nietzsche,a poucos meses e desde então me apaixonei por ele,por suas obras e quando assisti ao filme; Quando Nietzche Chorou, também chorei e não consigo mais parar, em ler suas obras, biografias, sua vida tão sofrida, imagina que com sua tristeza, construiu essas jóias, imaginem, se estivesse feliz..mas que permanecerá vivo,para sempre!!!!Muitas vezes, vasculhando na Internet e dali a pouco me vejo lendo, lendo, lendo e relendo é incrível, o que sinto por esse magnífico Filósofo…